Boy-Poruçuguaba: Patrimônio, Memória e Projeto Módulo II: Diagnóstico Físico – Levantamentos

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Módulo II: Diagnóstico Físico – Levantamentos

O projeto Boy-Poruçuguaba: Patrimônio, Memória e Projeto é uma iniciativa de pesquisa, educação patrimonial e formação que propõe uma leitura crítica e participativa do patrimônio cultural brasileiro. Os encontros presenciais e atividades ocorrem no Sítio Santo Antônio, localizado em São Roque, interior do estado de São Paulo.

Desenvolvido pelo Coletivo Ponte e pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Itatiba, com fomento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) e em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O projeto busca ampliar as formas de compreender o patrimônio além da preservação arquitetônica tradicional. A proposta valoriza especialmente memórias afro-indígenas e histórias frequentemente invisibilizadas nas narrativas oficiais.

Estruturado em três módulos, com um total de 24 atividades que acontecem entre os meses de dezembro de 2025 a agosto de 2026, o projeto articula pesquisa acadêmica, prática territorial e diálogo com comunidades locais, buscando construir formas mais plurais, inclusivas e socialmente comprometidas de pensar o patrimônio cultural.

Relatamos neste artigo, como foi o Módulo II: Diagnóstico Físico – Levantamentos, realizado entre  os meses de fevereiro e abril de 2026.

Módulo II: Diagnóstico Físico – Levantamentos

Elaboração de Inventário de Bens Móveis e Integrados

O primeiro encontro presencial do Módulo II do Projeto Boy-Poruçuguaba aconteceu em 7 de fevereiro, e teve como foco a análise e prática em canteiro.

A aula de Elaboração de Inventário de Bens Móveis e Integrados, dada pela Dra. Ana Beatriz Menegaldo e Dra. Carolina Nunes discutiu como identificar, registrar e analisar os elementos importantes de um patrimônio histórico.

Os bens móveis incluem objetos que podem ser removidos, como móveis, imagens religiosas e utensílios. Já os bens integrados são elementos ligados à própria arquitetura, como pinturas murais, pisos, forros, portas e ornamentos. 

Como atividade prática, os participantes tiveram que preencher um inventário diretamente no Sítio. A proposta foi estimular um olhar mais atento para os detalhes construtivos e para os objetos presentes no conjunto arquitetônico. Através do exercício, foi discutido como avaliar o estado de conservação desses bens, e por que o inventário é uma etapa essencial para conhecer melhor o patrimônio antes de qualquer outra intervenção.

Em seguida, teve a oficina Ensaios e Testes – Abertura do Canteiro: mão na terra!, com a abertura oficial do canteiro didático com o professor Dr. Marcos Tognon e o Mestre Taipeiro José Edson. 

Tognon trouxe os aspectos históricos e construtivos da Arquitetura de Terra, e relacionou a técnica à realidade do Sítio. Juntos, colocaram em prática as técnicas tradicionais de construção de terra ensinadas, e os participantes construíram um banco de taipa, instalado posteriormente no estacionamento do Sítio Santo Antônio.

  • Confira os registros no Canal do  YouTube do Coletivo Ponte. 

2ª Aula Aberta Online

A 2ª Aula Aberta Online do projeto foi dividida em duas rodas de conversa. A primeira, Debates sobre a formação histórica do Sítio, narrativas subalternizadas e a presença indígena, propôs uma releitura crítica da história do Sítio Santo Antônio, e destacou os personagens, memórias e narrativas que costumam ser apagadas nas interpretações tradicionais do patrimônio histórico.

A aula girou em torno de como a história do local foi construída a partir do ponto de vista das elites coloniais e da valorização da arquitetura do conjunto. Enquanto, por outro lado, as experiências de populações indígenas, negras e mestiças permaneceram pouco visíveis. Nesse sentido, o encontro buscou dar evidência para essas outras histórias.

Para maior entendimento e leitura da época, os mediadores Julio Schneider Neto, Gislaine Silva e Maria Daniela Paulino, abordaram temas como a formação do território paulista no período colonial, as relações entre famílias bandeirantes e populações escravizadas, além da presença afro-indígena no Sítio Santo Antônio.

Também foram destacadas reflexões sobre duas personagens femininas importantes: Inácia Paes de Barros e Maria de Mendonça, com questões ligadas à escravidão, à organização doméstica colonial e às estratégias de manutenção de poder e patrimônio pelas famílias da época.

A segunda parte da aula foi conduzida por Ana Menegaldo, Larissa Caroline, Laura Mendes e Décio Pradella. Em Leitura técnica do patrimônio: levantamento cadastral, representação arquitetônica e fotografia aplicada ao patrimônio arquitetônico, foram apresentadas formas de analisar o bem histórico para além da aparência estética e da narrativa oficial.

Para isso, os participantes estudaram os materiais construtivos, as técnicas utilizadas, as alterações ao longo do tempo, os processos de restauração e as marcas deixadas pelas diversas ocupações do espaço.

Dentro desse contexto, as aulas propõem ampliar a leitura técnica tradicional, ao conectar arquitetura, história social e memória. Ou seja, além de estudar superfícies, materiais e técnicas construtivas, também é importante compreender quem construiu esses espaços, quais grupos sociais viveram ali e, principalmente, quais histórias foram apagadas ao longo deste percurso.

Com essa leitura decolonial do patrimônio, é possível entender os espaços históricos não apenas como monumentos arquitetônicos, mas como lugares atravessados por conflitos, desigualdades e múltiplas experiências sociais.

  • Confira a aula completa no Canal do YouTube do Coletivo Ponte. 

Acessibilidade e Escuta no Sítio Santo Antônio

No dia 14 de março, o projeto Boy-Poruçuguaba realizou mais uma etapa de sua formação presencial no Sítio Santo Antônio, com a realização de duas atividades simultâneas voltadas à acessibilidade, escuta e participação social no patrimônio cultural.

De um lado, aconteceu a aula Acessibilidade e Escuta no Sítio Santo Antônio, conduzida pela arquiteta Adriana Vieira. A atividade discutiu como os espaços históricos podem ser pensados de maneira mais inclusiva. Ao usar a teoria e prática para refletir sobre acessibilidade em patrimônios preservados, a mentora junto com os participantes, pensaram maneiras de fazer isso acontecer sem comprometer a identidade histórica do local.

Durante a aula, os participantes analisaram aspectos como circulação, acessos e barreiras físicas presentes no conjunto arquitetônico. Também foram realizadas experiências práticas, como percursos com cadeira de rodas e uma vivência sensorial dentro da capela. 

A atividade foi de encontro com a proposta do projeto de compreender a acessibilidade para além das adaptações técnicas, a colocando também como uma prática de acolhimento, escuta e democratização do patrimônio cultural. Nesse contexto, foram discutidos recursos de mediação sensível e a importância de tornar os espaços históricos mais acessíveis a diferentes públicos.

Ao mesmo tempo, aconteceu o LAB relâmpago, referente ao Módulo I do Projeto, com a arquiteta Daniela Colin. Os moradores da região participaram de um processo colaborativo de escuta e reflexão sobre o Sítio Santo Antônio. A atividade utilizou metodologias como escuta ativa e design thinking para compreender percepções, potencialidades e possibilidades futuras para o espaço.

Ao final, os dois grupos se encontraram, para promover uma troca entre conhecimento técnico e vivências locais. Esse diálogo reforçou a proposta do projeto de pensar o patrimônio como um espaço vivo, atravessado por múltiplas experiências sociais, culturais e históricas.

  • Confira os registros das aulas no Canal do YouTube do Coletivo Ponte. 

3ª Aula Aberta Online

A 3ª Aula Aberta Online, que aconteceu dia 28 de março de 2026, promoveu duas formações voltadas às relações entre patrimônio cultural, meio ambiente e práticas técnicas aplicadas no Sítio Santo Antônio.

A primeira aula, Levantamento de fauna e flora na área do conjunto arquitetônico, foi conduzida pela bióloga e doutora em Ecologia, Fernanda Dall’Ara Azevedo. A atividade discutiu a importância da análise ambiental em áreas patrimoniais, abordou a identificação da fauna e da flora presentes no entorno do Sítio e ainda propôs reflexão sobre as relações entre preservação ambiental e patrimônio cultural.

A formação destacou como o entendimento das características naturais do território contribui para práticas mais integradas de conservação, ao considerar não apenas o edifício histórico, mas também a paisagem e os ecossistemas que fazem parte do conjunto.

A segunda, o geólogo e mestre em Geotecnia, Antonio Marrano, ministrou a aula Fases de estudo em projetos de obras civis: objetivos, métodos de investigação e produtos. O encontro apresentou etapas técnicas fundamentais para projetos de intervenção e conservação. Marrano explicou métodos de investigação do solo, análise do terreno e estudos necessários para obras civis em áreas históricas.

A atividade mostrou como levantamentos técnicos e geológicos ajudam a compreender as condições físicas do território, e contribuem para intervenções mais seguras, sustentáveis e adequadas às especificidades e necessidades do patrimônio cultural.

De forma geral, a 3ª Aula Aberta reforçou a proposta interdisciplinar do projeto Boy-Poruçuguaba, aproximando patrimônio, meio ambiente e conhecimento técnico. As discussões ampliaram a compreensão do patrimônio como um espaço que envolve não apenas arquitetura e memória, mas também paisagem, território e relações ambientais.

  • Confira a aula completa no Canal do YouTube do Coletivo Ponte.

AULA PRESENCIAL

Como fazer um Mapeamento de Danos e avaliar o Estado de Conservação 

No dia 11 de abril, a programação do Projeto Boy-Poruçuguaba no Sítio Santo Antonio contou com a aula “Como fazer um Mapeamento de Danos e avaliar o Estado de Conservação”, ministrada pela arquiteta e urbanista Natália Rezende. 

A atividade apresentou a metodologia utilizada na elaboração do Mapa de Danos do Sítio Santo Antônio, abordando etapas como levantamento métrico e fotográfico, identificação das manifestações patológicas e análise das possíveis causas dos danos observados nas edificações.

Além da formação teórica, os participantes também acompanharam uma atividade prática de retirada de amostragens de taipa e prospecção construtiva na Capela e na Casa do Sítio Santo Antônio, conduzida por Sidney e Kátia, da KRM Restaurações e Conservação. A experiência proporcionou um contato direto com técnicas de investigação e conservação do patrimônio, ampliando a compreensão sobre os processos de restauro e preservação de bens históricos.

4ª Aula Aberta Online

A 4ª Aula Aberta Online do projeto Boy-Poruçuguaba, realizada em 25 de abril de 2026, foi dedicada às práticas técnicas de arquitetura e engenharia aplicadas à elaboração de relatórios para patrimônio cultural e obras civis.

A formação reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir métodos de levantamento, documentação e análise técnica, destacando a importância desses procedimentos para processos de preservação, intervenção e manutenção de bens históricos.

A primeira aula, Como fazer um Levantamento Planialtimétrico e um Relatório de Instalações Elétricas, foi conduzida por Ribeiro Andreatta. O encontro apresentou fundamentos do levantamento planialtimétrico, técnica utilizada para representar as características do terreno e suas dimensões, além de orientações sobre elaboração de relatórios técnicos relacionados às instalações elétricas em edificações.

Foram abordados aspectos como leitura do espaço, identificação de sistemas existentes, documentação técnica e organização de informações necessárias para projetos e intervenções.

Na sequência, Ricardo Capeletti, Eduardo de Moraes e David Henrique Pereira ministraram a aula Como fazer um Relatório de Instalações Hidrossanitárias e de Instalações de Sistema de Proteção e Combate à Incêndio. A atividade discutiu procedimentos técnicos para análise das instalações hidrossanitárias e dos sistemas de prevenção e combate a incêndios, enfatizando a importância da segurança, do diagnóstico técnico e da compatibilização das infraestruturas em edificações históricas.

As aulas também reforçaram a necessidade de integrar conhecimento técnico e preservação patrimonial, considerando as especificidades construtivas e históricas dos edifícios analisados.

  • Confira a aula completa no Canal do YouTube do Coletivo Ponte.

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