Conheça o projeto Caminhos da União: crianças pelo direito à cidade no Jardim São Manoel
A infância é uma etapa preciosa. Tudo o que se aprende, vive e experiencia nesse período acompanha a pessoa por toda a vida. O bairro em que nascemos é, muitas vezes, o primeiro contato com o mundo para além da família. É onde fazemos amigos, conhecemos vizinhos e construímos memórias.
Conhecer o bairro, sua história, seus caminhos e seus moradores, além de poder imaginar e contribuir para o seu futuro, é um presente.
Por isso, um projeto voltado às crianças busca criar oportunidades para que elas conheçam, aprendam, vivenciem experiências e fortaleçam seu senso de pertencimento do lugar onde vivem.
O que é o Projeto Caminhos da União?
O projeto Caminhos da União: crianças pelo direito à cidade no Jardim São Manoel, foi criado em 2025 e estruturado pelo Coletivo Ponte junto com a Associação de Moradores da Rua João Carlos da Silva e Adjacências do Bairro São Manoel, em Santos/SP, e é financiado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP).
A ideia principal do CDU é trabalhar com grupos de crianças e adolescentes do bairro, e desenvolver com eles a leitura do território – para entender como o bairro é hoje, pensar nas possibilidades de futuro e considerar as transformações ligadas aos processos de urbanização da área ocupada por palafitas (o Caminho São Manoel ou, como era chamado anteriormente, Caminho da União).
O cronograma de atividades ocorre entre os meses de maio e agosto de 2026 (será mais detalhado abaixo). Em setembro, terá um encontro de encerramento, com pequena confraternização entre os organizadores e os participantes.
Como tudo começou
Em 2025, parte da equipe do Coletivo Ponte integrou o Diálogos Construtivos. Também com recurso do CAU/SP, o projeto teve como autor da proposta o Instituto Elos, com participação de moradores e parceria de outras organizações. A proposta resultou na construção do Museu Comunitário do São Manoel.
As discussões sobre o projeto urbano previsto para o Caminho São Manoel foram abrangidas e tomaram novos rumos. O entendimento do território e das dinâmicas realizadas com os moradores, evidenciou os impactos dessas transformações e identificou novos problemas a serem desenvolvidos – como a necessidade de inclusão das crianças no entendimento e impacto do projeto.
Além disso, durante o processo do Museu Comunitário, os moradores identificaram um distanciamento entre a escola e os acontecimentos no bairro. Apontado como um problema a ser solucionado, a aproximação desses espaços se tornou um objetivo de contribuição do projeto.
Nesse contexto coletivo de diálogo e escuta com os movimentos de moradia, moradores e associações locais – como a Associação da Rua João Carlos da Silva – surgiu a ideia de um projeto voltado especialmente para as crianças do Bairro São Manoel.
Entenda o território
O Jardim São Manoel apresenta uma dinâmica interna bem delimitada, e os próprios moradores reconhecem as diferentes “partes” do bairro.
A área mais antiga, do loteamento Varela, possui maior infraestrutura.
A área que os moradores chamam de “favela”, corresponde ao Caminho São Manoel (antigo Caminho da União), onde estão localizadas moradias em palafitas e a maior parte dos comércios e da vida cotidiana do bairro.
E tem a área da Rua João Carlos da Silva, que também possui sua própria organização e luta. O território é bastante acolhedor, com associação ativa (proponente do projeto), mas que não foi contemplado pelo projeto urbano, apesar da proximidade com o Caminho São Manoel.
Cada uma dessas áreas conta com sua própria associação comunitária.

O que foi feito até o momento
De janeiro ao final de abril de 2026, foram realizadas diversas articulações e conversas com os projetos locais, visto que o bairro de São Manoel conta com diversas iniciativas sociais, culturais e ambientais que atuam tanto com adultos quanto com crianças.
Um dos principais pontos de articulação tem sido a Horta Comunitária Bons Frutos. O espaço, de extrema importância no bairro, acolhe diversos outros projetos, como:
- Projeto Óleo Noel, que atua com crianças no recolhimento e reciclagem de óleo de cozinha usado e trabalha temáticas ambientais, de economia solidária e empreendedorismo social.
- Projeto de extensão MUDA, da UNIFESP, vinculado ao curso de Terapia Ocupacional do campus Baixada Santista. Focado em horta comunitária, agroecologia e educação ambiental, fortalece a segurança alimentar e o vínculo comunitário;
- Plano Comunitário de Redução de Riscos Climáticos do São Manoel (PCRA), projeto da Secretaria Nacional de Periferias voltado ao planejamento participativo para enfrentar riscos climáticos e o déficit habitacional, especialmente em áreas de palafitas – coordenado por Vinícius Sakamoto, também à frente da Horta Bons Frutos.
As conversas são feitas diretamente com as pessoas envolvidas nesses projetos, como a Luany Godoy, do Projeto MUDA; o André Leandro, do Óleo Noel; e a Dona Vilma, que também coordena a Horta Bons Frutos.

Reunião entre o Coletivo Ponte e Associação de Moradores da Rua João Carlos da Silva, realizada no dia 15 de março na Horta Bons Frutos. Imagem de Vitória Santos Oliveira. Link da imagem original.
Os diálogos também acontecem com outras iniciativas e agentes do território, como o documentarista Ailton Martins, que orientou adolescentes na produção do documentário Cidade Porto em Transe, desenvolvido a partir de oficinas de audiovisual no Jardim São Manoel. O trabalho aborda as relações entre a expansão portuária, a vida no território e seus impactos sociais e ambientais.
A ideia é trazer o público desses projetos locais e articular as ações do Caminhos da União com essas iniciativas já desenvolvidas, de forma a somar ao que já acontece no bairro.
Além disso, estão sendo feitas conversas com a UME José Carlos de Azevedo Jr, a fim de buscar possibilidades de vincular as atividades do projeto ao ambiente escolar. Há igualmente a presença de diálogo com o poder público, incluindo secretarias relacionadas ao planejamento urbano, meio ambiente e educação (SEMAN e SEDUC), com apresentações do projeto e tentativa de articular o acompanhamento das ações educativas.
Paralelamente, foram realizadas reuniões com a Associação de Moradores da Rua João Carlos da Silva, voltadas à organização do projeto, alinhamento do escopo e encaminhamento de questões administrativas.
De forma geral, esse período tem sido marcado por um processo intenso de articulação, construção de parcerias e aproximação com diferentes atores do território.
Participação no 1º Fórum de Pesquisas
Além dos diálogos e encontros com outras organizações e moradores, no dia 18 de abril, o Caminhos da União marcou presença no 1° Fórum de Pesquisa do Jardim São Manoel, na sede da Associação dos Moradores do Caminho São Manoel, sendo apresentado junto com outros projetos que acontecem também dentro do bairro.

O Fórum de Pesquisas busca fortalecer as redes de pesquisa na região e informar os moradores sobre as iniciativas desenvolvidas no território, seja no âmbito acadêmico, social ou do terceiro setor. Por isso o encontro foi de extrema importância e relevância para a desenvoltura do projeto.

Como o projeto está agora e o que vem pela frente
No momento, o projeto se encontra em consolidação da metodologia. A estrutura das atividades foi construída a partir das conversas realizadas com os projetos sociais locais, com a escola do bairro, com a Associação de Moradores da Rua João Carlos da Silva e com outros atores do território, assim citado anteriormente.
Nessa primeira parte do processo, o objetivo é articular o escopo do projeto com as iniciativas já presentes no bairro, para integrar e interagir com as atividades que acontecem no território.
Por agora, o foco é a finalização do calendário das ações educativas, previstas para ocorrer entre maio e agosto, com evento de encerramento em setembro.
As atividades serão organizadas considerando os diferentes públicos envolvidos, e vão ser estruturadas em três etapas principais:
- Primeira etapa: diagnóstico do bairro
Será realizada junto às crianças e adolescentes, com atividades como caminhadas de mapeamento afetivo, abordando temas como infraestrutura, mobilidade, acessibilidade e questões ambientais. - Segunda etapa: análise do projeto urbano
Voltada ao entendimento do projeto urbano previsto pela prefeitura, buscando refletir com as crianças e adolescentes se as questões identificadas no diagnóstico estão contempladas. - Terceira etapa: proposições
- Etapa mais propositiva, com desenvolvimento de ideias a partir de desenhos, colagens e maquetes e, possivelmente, a realização de pequenas intervenções no bairro (inspiradas no urbanismo tático), como forma de testar, de maneira simples e temporária, algumas melhorias pensadas coletivamente para os espaços do território.
Ao final, a proposta é sistematizar os dados e aprendizados do processo em uma publicação, para reunir tanto a avaliação do projeto, quanto as metodologias e materiais desenvolvidos pela equipe.
Essa sistematização também busca compartilhar a experiência em espaços acadêmicos e ampliar as possibilidades de replicação da metodologia por outros grupos e territórios. Além disso, o projeto pretende contribuir para o fortalecimento da atuação política local, especialmente da Associação de Moradores da Rua João Carlos da Silva.
Acompanhe e participe do projeto Caminhos da União!
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Arquiteta e urbanista, atua no Coletivo Ponte desde 2023 com projetos em habitação de interesse social, regularização fundiária, educação urbana, ambiental e patrimônio cultural. É sócia do Estúdio Entrópico Arquitetura, desenvolvendo projetos e assessoria técnica.
Pós-graduada em Habitação de Interesse Social pela Universidade Federal de São Paulo e bacharel pela Universidade Católica de Santos. Transita entre prática técnica, processos coletivos e arte-educação.
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